A Mesquita Azul — a joia de Istambul e uma obra-prima da arquitetura otomana clássica
A Mesquita Azul, oficialmente conhecida como Mesquita do Sultão Ahmed (Sultan Ahmet Camii), é um dos pontos turísticos mais reconhecidos da Turquia e um símbolo de Istambul. Construída entre 1609 e 1617 por encomenda do jovem sultão Ahmed I, tornou-se a última grande mesquita imperial do período otomano clássico e, simultaneamente, a resposta arquitetónica à catedral de Santa Sofia, situada em frente. A Mesquita Azul recebeu o seu nome não oficial graças aos mais de 20 000 azulejos brancos e azuis de Iznik que decoram o seu interior. Em 1985, juntamente com toda a zona de Sultanahmet, a Mesquita Azul foi incluída na lista do Património Mundial da UNESCO. Hoje, não é apenas um museu a céu aberto, mas uma mesquita em funcionamento, que recebe milhares de fiéis e turistas diariamente.
História e origem da Mesquita Azul
A Mesquita Azul foi construída durante o reinado do sultão Ahmed I, que subiu ao trono aos 14 anos e governou numa época difícil para o Império Otomano. No início do século XVII, o império atravessava a sua primeira crise grave: uma série de derrotas nas guerras contra a Áustria, a Pérsia e a República da Polónia-Lituânia, bem como revoltas internas e problemas económicos, minavam o prestígio dos sultões. O Tratado de Paz de Zítva-Torok, de 1606, que pôs fim à guerra com os Habsburgos sem as habituais aquisições territoriais dos turcos, foi interpretado como um golpe à honra do Império. Foi precisamente neste contexto que o jovem Ahmed I decidiu construir uma enorme mesquita em Istambul, como sinal de pedido a Deus pela bênção do Império.
A construção teve início em 1609, sob a direção do arquiteto Sedefkar Mehmed-agi, aluno do famoso Mimar Sinan. O local foi escolhido de forma particularmente simbólica: mesmo em frente à Santa Sofia, no lado sul do antigo hipódromo de Constantinopla, no coração da cidade velha. Para tal, foi necessário demolir vários palácios da época bizantina e dos primeiros tempos otomanos. Ahmed I supervisionou pessoalmente a construção, e a mesquita tornou-se a primeira mesquita imperial erigida em Istambul 42 anos após a mesquita de Selim II. Foi inaugurada solenemente em 1617, apenas alguns meses antes da morte do sultão, aos 27 anos.
Ao longo dos quatro séculos seguintes, a Mesquita Azul permaneceu como um templo muçulmano em funcionamento e um dos principais símbolos de Istambul. Sobreviveu a vários terramotos e restaurações. A última grande restauração foi concluída em 2023: foram renovadas as cúpulas, os minaretes, os tapetes e o sistema de iluminação. Agora, a mesquita brilha mais uma vez em toda a sua beleza.
Arquitetura e o que ver na Mesquita Azul
A Mesquita Azul é o auge da arquitetura otomana clássica, que se desenvolveu ao longo de mais de cem anos com base na síntese das tradições bizantinas (sobretudo de Santa Sofia) e das mesquitas seljúcidas com cúpulas. A sua construção é o último grande desenvolvimento desta tradição.
Seis minaretes — uma característica única
A Mesquita Azul é a única mesquita em Istambul com seis minaretes, o que, na altura da sua construção, foi considerado quase um escândalo. Segundo uma das lendas, o sultão encomendou «minaretes dourados» (altın minareler), mas o arquiteto ouviu «seis minaretes» (altı minare) e reproduziu isso em pedra. Os seis minaretes da mesquita só se equiparavam aos da mesquita Masjid al-Haram, em Meca, o que provocou o descontentamento do clero muçulmano. Para resolver o conflito, Ahmed I financiou a construção de um sétimo minarete em Meca, restaurando a sua exclusividade.
A cúpula principal e o sistema de semicúpulas
A cúpula central da mesquita tem 23,5 metros de diâmetro e 43 metros de altura. Apoia-se em quatro gigantescos «pilares de elefante» e está rodeada por quatro semicúpulas, estas, por sua vez, por semicúpulas ainda mais pequenas, criando uma composição em cascata que distribui o peso de forma elegante. Este sistema permite obter um enorme espaço de oração aberto, sem pilares internos.
Azulejos de İznik — origem do nome
O principal valor artístico da mesquita reside nas mais de 20 000 telhas cerâmicas (azulejos) trazidas de Iznik, o maior centro cerâmico do Império Otomano. Nelas estão representadas tulipas, cravos, rosas, ciprestes e videiras numa paleta de tons de branco e azul. Estes azulejos cobrem as galerias superiores e as paredes, sendo particularmente bonitos na parte norte da mesquita. A produção de tantos azulejos custou tanto ao erário que o imperador Ahmed estabeleceu preços fixos, o que levou ao declínio das oficinas de Iznik.
Mihrab, minbar e pintura da cúpula
O mihrab, em mármore branco com incrustações, decorado com delicados entalhes arabescos, indica a direção de Meca. Ao lado encontra-se o minbar — a tribuna para os sermões, feita do mesmo mármore. A pintura interior da cúpula e das semicúpulas foi executada com tinta vermelha e azul e dourados. Mais de 200 vitrais criam uma iluminação suave e difusa, que muda ao longo do dia.
Pátio interior e complexo do kulliye
Justo ao lado da mesquita encontra-se um grande pátio interior com uma fonte para abluções no centro. Ao longo do perímetro, o pátio é rodeado por uma arcada com 30 cúpulas. Todo o complexo — o «külliye» — incluía uma madraça, um imaret (refeitório para os pobres), um caravançarai, um hospital, um bazar, uma escola primária e o mausoléu do próprio sultão Ahmed I e da sua família.
O arquiteto Sedefkar Mehmed-aga — aluno de Sinan
O arquiteto principal da Mesquita Azul foi Sedefkar Mehmed-aga, aluno do grande Mimar Sinan. Nascido numa família albanesa e tendo chegado a Istambul através do sistema devşirme (recrutamento de rapazes cristãos para o serviço do sultão), percorreu o caminho de incrustador de madrepérola (daí a alcunha «Sedefkar» — mestre da madrepérola) até se tornar o principal arquiteto da corte. A sua autobiografia, «Risale-i Mimariye», que se conservou até aos nossos dias, é um dos documentos mais valiosos sobre a história da arquitetura otomana. Mehmed-aga supervisionou pessoalmente cada etapa da construção e, segundo a tradição, trabalhava na obra das quatro da manhã até tarde da noite, controlando a qualidade de cada pedra e de cada ladrilho.
O antigo hipódromo e o contexto arqueológico
O local escolhido para a mesquita tinha um enorme significado simbólico. Aqui situava-se o antigo hipódromo bizantino, com capacidade para 100 000 espectadores, onde se realizavam corridas de bigas, combates de gladiadores e cerimónias de coroação. No século XIII, durante a Quarta Cruzada, o hipódromo foi saqueado e a famosa quadriga de bronze de Lisipo foi levada para Veneza, onde agora decora a Basílica de São Marcos. Hoje, restam apenas três monumentos do hipódromo — o Obelisco de Teodósio (obelisco egípcio de Luxor do século XV a.C.), a Coluna da Serpente (século V a.C., de Delfos) e o Obelisco de Constantinopla. Todos eles se erguem mesmo em frente à Mesquita Azul, formando um dos conjuntos com maior riqueza histórica do mundo: monumentos milenares do antigo Egito e da Grécia clássica, o hipódromo bizantino e a mesquita imperial otomana — tudo isto num raio de cem metros.
Vitrais e lustres
A atmosfera especial da mesquita é criada por mais de 260 vitrais, dispostos em várias fileiras nas paredes e no tambor da cúpula. Os vitrais originais do século XVII foram feitos pelo mestre Ibrahim «O Embriagado» (Sarhoş Ibrahim), que também trabalhou na Mesquita de Süleymaniye. Infelizmente, a maioria dos originais foi perdida em resultado de incêndios e terramotos, e os vitrais atuais são réplicas do século XIX. A luz suave que passa através deles tinge o interior em tons de azul e verde, realçando a sinfonia de cores dos azulejos de İznik. A iluminação é complementada por enormes lustres de cristal, suspensos por correntes a apenas alguns metros do chão — uma solução original, na qual a luz se reflete primeiro no chão e nos tapetes e depois sobe até à abóbada, criando um efeito de «brilho interior».
Restauro de 2017–2023
A restauração em grande escala, concluída em 2023, demorou mais de seis anos e custou ao governo turco um montante superior a 35 milhões de liras. Os trabalhos incluíram o reforço das cúpulas, a substituição dos azulejos de Iznik danificados por réplicas, fabricadas com os mesmos métodos do século XVI nas oficinas da Iznik contemporânea, a renovação dos tapetes (que foram tecidos especialmente para a mesquita e correspondem aos modelos otomanos originais), a limpeza das pinturas caligráficas e a restauração dos vitrais. Durante as obras, o acesso aos visitantes foi parcialmente restrito, o que permitiu aos arqueólogos e historiadores de arte realizar a investigação mais detalhada da mesquita em toda a sua história. Algumas descobertas revelaram-se inesperadas: sob o reboco do século XIX, numa das paredes, foram encontrados fragmentos da pintura original de 1617 com ornamentos vegetais, que anteriormente se consideravam perdidos.
Factos interessantes e lendas
- O custo da construção da mesquita foi tão elevado que Ahmed I, não dispondo de troféus de guerra suficientes (as mesquitas eram normalmente financiadas com o saque de guerra), recorreu aos fundos do erário público, o que suscitou críticas por parte dos ulemás.
- Em 1826, a Mesquita Azul tornou-se palco de importantes acontecimentos históricos: o sultão Mahmud II anunciou aqui a dissolução do corpo dos janízaros, o que ficou conhecido como «O Acontecimento Benéfico» (Vaka-yi Hayriye).
- O mausoléu do sultão Ahmed I, situado no canto nordeste do complexo, contém os túmulos do próprio sultão, da sua esposa Kösem e dos seus filhos Osman II e Murad IV.
- Durante a sua visita a Istambul em 2006, o Papa Bento XVI visitou a Mesquita Azul — esta foi apenas a segunda visita de um papa a um templo muçulmano na história, depois do Papa João Paulo II.
- A Mesquita Azul nunca foi a «maior» mesquita do Império Otomano, mas é considerada uma das mais belas graças à combinação de azulejos, vitrais e uma cascata de cúpulas.
Como chegar à Mesquita Azul
A Mesquita Azul está localizada no bairro de Sultanahmet, a uma curta distância a pé da Santa Sofia (através da praça com o mesmo nome) e do Palácio de Topkapi. A paragem de transportes públicos mais próxima é a do elétrico T1 «Sultanahmet», a apenas 3–5 minutos a pé. O elétrico liga Sultanahmet a Eminönü, ao Grande Bazar, a Kapalı Çarşı e a Kabataş (onde se pode fazer transbordo para o funicular para Taksim).
A partir do aeroporto internacional IST, a forma mais conveniente de chegar a Sultanahmet é de metro M11, com transbordo para o M7 e, em seguida, de elétrico T1 (duração total de cerca de 1,5 horas). O táxi é mais rápido, mas significativamente mais caro. A entrada na mesquita é gratuita para todos, mas durante as cinco orações diárias (cinco vezes por dia, incluindo a oração de meio-dia de sexta-feira), o acesso para não-muçulmanos é temporariamente encerrado. Nas entradas norte e sul há placas com o horário das orações.
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é de manhã cedo ou perto do pôr-do-sol, quando a luz é suave e há menos multidões. Evite a oração de meio-dia de sexta-feira (normalmente das 12 :30 às 14 :30). Após a restauração de 2023, a Mesquita Azul está novamente totalmente aberta ao público, e o seu interior brilha como nunca.
O código de vestuário é rigoroso: as mulheres devem cobrir a cabeça, os ombros e os joelhos (são distribuídos lenços gratuitamente à entrada), e os homens não devem usar calções acima do joelho. Os sapatos devem ser retirados e colocados num saco de plástico, que também é fornecido. No interior da mesquita, mantenha-se em silêncio e seja respeitoso: trata-se de um local de culto ativo, e pode haver fiéis a rezar nas proximidades. É permitido tirar fotografias, mas sem flash.
Não deixe de dar uma volta pelo exterior da mesquita, especialmente pelo lado do Grande Bazar — daqui tem-se a melhor vista dos seis minaretes e da cascata de cúpulas. À noite, com a iluminação, a mesquita fica particularmente impressionante. Itinerário ideal: visita à Santa Sofia → pausa para um chá na esplanada de um café com vista → Mesquita Azul → Cisterna da Basílica → Grande Bazar. Entre a mesquita e a Santa Sofia encontra-se um jardim com fontes, onde se pode descansar entre as visitas. No complexo da mesquita funciona também um pequeno museu gratuito que conta a história da construção e da restauração — é fácil passar por ele sem dar por isso, mas vale a pena dar uma vista de olhos.